18/06/2011

Educação do Homem Antigo

Na transformação da sociedade comunista primitiva em sociedade dividida em classes, a educação tem como fins específicos a luta contra as tradições do comunismo tribal. O ideal pedagógico já não pode ser o mesmo para todos; não só as classes dominantes tem ideais diferentes dos da classe dominada, como ainda tentam fazer com que a massa laboriosa aceite essa desigualdade de educação como uma desigualdade imposta pela natureza, desigualdade, contra a qual seria loucura rebelar-se.

Quando os gregos entraram para a história restavam apenas alguns vestígios do comunismo primitivo. Desde o séc X até o VIII a.C., as tribos gregas viveram quase que exclusivamente da agricultura, cada família constituindo um todo que se bastava a si mesmo. Emprestando dinheiro sob hipoteca, o nobre ia-se assenhoreando das terras alheias. O cidadão pobre que perdera as suas terras poderia considerar-se feliz se lhe permitissem continuar cultivando essas mesmas terras na qualidade de colono, com a condição de entregar ao novo proprietário cinco sextos do seu trabalho.

Temos, então, de um lado, a concentração gradual da propriedade em poucas mãos e, do outro, um empobrecimento cada vez mais acentuado das massas. Possuidor de terras, proprietários de escravos e guerreiro, eis aí o homem das classes dominantes.

Em relação à educação de que necessitava esse homem, Esparta e Atenas apresentam aspectos diferentes:


As características da educação militar compartilhada pelos homens e pelas mulheres espartanas se recorriam à severidade e à crueldade para transformar os moços e as moças em rijos soldados. Fomentavam-se descaradamente as práticas do amor homossexual para estreitar os laços de companheirismo. Assegurar a superioridade militar sobre as classes submetidas, eis o fim supremo da educação, rigidamente disciplinada por meio da prática da ginástica e austeramente controlada pelos éforos, os cinco magistrados que exerciam, por delegação da nobreza, um poder quase absoluto.
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Esparta se apropriava e vivia às expensas do trabalho alheio. Integralmente dedicando à sua função de dominador e de guerreiro, o espartano nobre não cultivava outro saber que não o das coisas das armas, e não só reservava para si esses conhecimentos, como castigava ferozmente, nas classes oprimidas, todo e qualquer intento de compartilhá-lo ou de apropriar-se dele. O espartano ainda se esforçava por manter submissos e embrutecidos os escravos, por meio do terror e da embriaguez. Enquanto, por um lado, a educação reforçava o poder dos exploradores, frenava, pelo outro, as massas exploradas.


Escola de Atenas

Ainda que submetidos a uma discipla menos brutal do que a que imperava em Esparta, os jovens atenienses também consideravam a guerra como a sua ocupação fundamental, e o despotismo como a mais perfeita forma de governo. 

"Formar o homem das classes dirigentes, eis o ideal da educação grega".

Fundada segundo se crê por volta de 600 a.C, a escola elementar vinha desempenhar uma função que não podia ser desempenhada satisfatoriamente pela tradição oral, nem pela simples imitação dos adultos.

Devemos reconhecer que as escolas elementares eram todas dirigidas por particulares, dos quais o Estado não exigia nenhuma garantia, da mesma forma que também devemos reconhecer que a ausência dos programas oficiais deixava os mestres em aparente liberdade.

A “liberdade” de ensino não implicava, portanto, a liberdade de doutrina. O professor não moldava os seus discípulos de acordo com as suas próprias concepções; devia formar neles os futuros governantes e inculcar neles, pela mesma razão, o amor à pátria, ás instituições e aos deuses.

O Estado impedia a entrada nos ginásios dos jovens que não haviam frequentado as escolas e as palestras particulares. Como só eram elegíveis para os cargos estatais os jovens que haviam passado pelo ensino do ginásio, compreende-se que o resultado do “ensino livre” tenha sido a concentração dos cargos existentes nas mãos das famílias nobres.

O filhos de um artesão quando não continuava sendo um analfabeto, apenas conseguia adquirir os mais elementares conhecimentos de leitura,escrita e cálculo. O filho do nobre por outro lado, podia completar integralmente todo o programa de uma educação que compreendia todos os graus de ensino.

Uma educação para a prosperidade era a educação reclamada por todos. A “virtude” do proprietário guerreiro, que pretendia, acima de tudo, formar soldados, empalidecia diante do “bem –estar” do homem enriquecido e prospero, que aspirava formar indivíduos conscientes do seu próprio valor e capazes de abrir novos caminhos a qualquer custo.

Para ir à escola as crianças eram acompanhadas por um escravo (pedagogo) até um lugar em que se reuniam todas as crianças do bairro. Formavam, então, uma coluna e marchavam em ordem para a escola, com passos rítmicos e olhos baixos. Mas as crianças de agora,já não iam em formação; ao contrario, separadas e alegres, encaminhavam-se para a escola olhando tranquilamente tudo o que encontravam.


Do outro lado temos Roma que nos primeiros tempos da República, os filhos do proprietário recebiam a sua educação ao lado do pai, acompanhando-o, nas suas tarefas mais simples. Para aprender, a única maneira era a pratica. A guerra, ele travava conhecimento com ela, primeiro nos campos de exercício, depois na coorte do general. Em relação a política, ele se adestrava assistindo as sessões em que se debatiam os assuntos mais ruidosos.

Aos vinte anos, o jovem nobre, que já sabia arar a terra e que já havia assistido a algumas batalhas no exército e no Senado, estava pronto para a vida pública. Quanto à instrução propriamente dita, ele recebera rudimentos de algum escravo letrado, a quem o seu pai delegara algumas responsabilidades. Não devemos ter ilusões a respeito da eficácia de tal pedagogo. Mais cúmplice do jovem, do que seu professor, o escravo lhe ministrava uma instrução que ia muito pouco além das primeiras letras.

A necessidade de uma “nova educação” começou a se fazer em Roma a partir do sec IV a.C, no mesmo momento em que a antiga classe aristocrática e rural começa a ceder posições a outra classe que se firmava, a comerciante e industrial. Unidos em confrarias e corporações, os comerciantes e os artesãos, que haviam aprendido a defender-se desse modo, começaram a ter influencias política e a gozar de consideração social.

Achando insuficiente a educação ministrada ate então aos nobres, começaram a exigir uma nova educação. Apareceu então em Roma, uma turba de professores: os LUDIMAGISTER, para a educação primaria; os GRAMATICOS, para a media; e os RETORES, para a superior.

A primeira noticia segura a respeito de uma escola primaria em Roma data do ano de 449 a.C. Tratava-se de uma escola particular, alias como todas as da época, para onde as famílias menos ricas enviavam os seus filhos. As que não podiam pagar professores particulares para os seus filhos entravam em acordo para custear os gastos de uma escola. Artesão como qualquer outro, o ludimagister, era um antigo escravo, um velho soldado ou um proprietário arruinado, que alugava um estreito compartimento chamado pérgula e abria ali a sua “loja de instrução”. O oficio do professor, da mesma forma que qualquer outro em que se ganhava um salário, era profundamente desprezado. Aos olhos dos romanos, o salário era uma prova de servidão.

O grammaticus levou de casa em casa a instrução enciclopédica necessária para a política, para os negócios e para as disputas nos tribunais. Desde a dicção esmerada, ate um rápido bosquejo filosófico, o essencial da cultura era ensinado, críticos capazes que, de certo modo, formavam a opinião publicam.

Mas, ainda estava faltando alguma coisa: faltava a cultura especializada que conduzia em linha reta aos altos cargos oficiais. E essa foi a novidade trazida pelos retores. O retor não se esquecia de um só detalhe: tinha algo de poeta e de ator, de advogado e de músico, de janota e de professor de boas maneiras. Previa os gestos mais insignificantes e os discutia a fundo. Graves polêmicas se travavam assim sobre coisas que para nos não passam de trivialidades.

As escolas públicas primárias foram uma criação dos comerciantes, dos industriais; as escolas públicas superiores também foram uma exigência do poderio crescente dessas classes, um modo de assegurar melhor a direção política de seus negócios.

A criança rica,que aos 7 anos havia entrado para a escola do magister, e que aos 12 começava a frequentar a do gramático, aos 16 se opunha em contato com o ensinamento do retor, que exigia, na realidade, a vida inteira para ser assimilado com proveito. 

Uma vez que não podiam formar oradores, como nos tempos republicanos, os retores ensinavam aos seus ricos alunos tudo quanto poderia ser essencial para a burocracia do império. Os conhecimentos propriamente técnicos não eram ensinados pelo retor, mas ele ensinava a defender igualmente as causas opostas, com argumentos sutis e de efeito. Os alunos discutiam sobre temas caprichosos, que refletiam mais ou menos bem os assuntos reais.

"O ensino passou a ser uma verdadeira industria, de que dependia a prosperidade dessas cidades."  


PONCE, A. Educação e luta de classe. São Paulo: Cortez Editora e Autores Associados, 1981. (Capítulo II e III).

Texto escrito por Izabela Moreira Alves e redigido por Flávia Lemos Bianquini.